terça-feira, abril 04, 2006

Cidade de Deus

O Cidade de Deus passou ontem à noite na rede “Bobo” às 22:10.
O filme de Fernando Meirelles retrata o cotidiano de uma favela carioca sobre a ótica da violência e do tráfico. Grande parte do elenco foi escolhido entre garotos que vivem em diferentes favelas do Rio de Janeiro. Mostra um mundo desconhecido da classe média, que vê a favela como um amontoado de barracos, ou como assunto de noticiários policiais.O filme escancara o apartheid social que vivemos no país. Narra aventuras individuais traçando um painel da realidade urbana. Leva quem assiste e analisa a entender melhor as dificeis escolhas que se impõem aos jovens da periferia: Ser honesto e viver em uma digna miséria ou unir-se aos bandidos e viver pouco tempo mas com mais grana e “respeito”. Não tinha assistido a película. Me lembrou um dos casos de quando dava aulas numa escola pública aqui na periferia de Belo Horizonte num dos bairros mais violentos da cidade chamado Alto Vera Cruz. Quando cheguei na escola, encontrei um ambiente que de certa forma estava familiarizado. Nasci num bairro cercado pela maior favela da cidade. O complexo do cafezal. Não demorei a me aproximar dos alunos, com muito cuidado por que eram a primeira vista muito arredios e desconfiados. Um dos primeiros que fiz amizade se chamava Adriano. Era alto, negro, cabelo oxigenado, usava muitas correntes e adereços pelo corpo e portava aquela voz característica da malandragem se é que me entendem. Fanhosa, swingada e cheia de gírias e de jargões. De cara vi que era um bom rapaz e que aquela “capa” de malandro era apenas influência do meio e uma tentativa de parecer menos desprotegido do que era na verdade, como a maioria de seus amigos. Fui me aproximando lentamente e, para a minha surpresa, depois de dizer que conseguia enxergá-lo por trás daquela capa, o cabelo foi raspado, a voz tornou-se normal e os penduricalhos sumiram. Começou a freqüentar as aulas e depois de um tempo sumiu. Pensei o pior. Em poucos meses fiquei sabendo de dezenas de casos de assassinatos por motivos que vocês nem acreditariam. A maioria tinha relação com o tráfico como no filme de Meirelles. Tive noticias que estava trabalhando e que namorava firme. Um ano se passou. Nos reencontramos. Parecia outra pessoa. Me contou seus planos de futuro e disse-me que ia ser pai. Fiquei muito orgulhoso e pensei ,esse vai se dar bem como o Buscapé do filme de ontem. Estava construindo um barraco no fundo da casa da sogra.Trabalhava e tinha planos de comprar um lote num bairro mais afastado para fugir da violência. Não queria que seu filho passasse pelo mesmo que passou. Sumiu novamente. Não me preocupei como da primeira vez. Ele estava no caminho. Passado um tempo me esqueci dele. Um dia na hora do almoço num desses jornais televisivos, vi mencionarem o “Alto” mostrando uma carteira de identidade com uma foto pouco nítida. Preciso continuar ? Acho que quando comecei vocês já imaginavam no que ia dar, não é?
Por causa de um acerto de contas do tráfico, invadiram seu barraco por engano e o mataram na frente da esposa que tinha o filho no colo. Parece coisa de filme, mas juro por tudo quanto me é mais sagrado; ACONTECEU.
Cidade de Deus é um dos filmes que já foi tão comentado e reverenciado que se torna monótono e repetitivo escrever sobre ele. O melhor mesmo é vê-lo. Concordo com Zuenir Ventura.“Assistir a Cidade de Deus é um dever cívico.”

8 Comments:

Blogger Vera F. said...

Marco Aurélio, realmente postei sobre o seriado "Cidade dos Homens" porque sabia que a Globo ia passar "Cidade de Deus" ontem. E, te confesso, teve horas que eu me perguntava "Que País é este???". Onde o pobre, o preto e o favelado já nasce com um destino traçado. Especiais são os que no meio deste situação caótica consegue sair ileso. São raros.
Para os privilegiados é melhor ignorá-los e quando são presos ou mortos ainda ficarem felizes que eles se foram. Isso seria certo se o país desse oportunidades para todos e se nossas autoridades dessem o exemplo em ética e honestidade. Mas se vemos os poderes executivo, legislativo e o judiciário, todos legislando em causa própria, fica difícil querer cobrar dos desassistido uma conduta correta. Sem contar que os grandes traficantes não moram na favela e sim em mansões de luxo e circulando na high-sociaty.
Vou parar por aqui senão deixa de ser um comentário e vira um artigo.

Obrigada pela visita. Volte sempre que quiseres. A porta sempre fica aberta.

Abs.

04 abril, 2006  
Anonymous Anônimo said...

Eu teria passado muito bem sem ver esse filme. Não mudou minha vida em nada e nem vai mudar. Nada ali é novidade. Nada. Discordo do Zuenir. Acho que nem devem assistir a esse filme, perda de tempo.
Um abraço.

04 abril, 2006  
Blogger Arthur Petrillo said...

Bom,

Se trata de um filme bastante controverso. Não vi muita crítica positiva. Há quem diga que aquilo é uma maquiagem de Fernando, que o encaixou na linguagem publicitária do negócio.
Mas publicidade ou não, pra mim, Cidade de Deus é um dos maiores brasucas da história. A realidade, pelo que bem conheço, é tão dura como lá. Um filme e tanto, técnica e subjetivamente. Muito bem dirigido. Enredo maravilhoso e trama intocável.

Sinto pelo seu aluno, pois sei bem como nos apegamos às pessoas, ainda mais quando elas são desfavorecidas. Os brasileiros temos (me permita a silepse) mais aguçada a incrível tendência de tomar as dores do anti-herói.

Gostei e concordo muito com sua crítica e tudo que li no texto.

(li e respondi seu comentário no "No close pro fim". dê uma olhadela lá)

Abraços de seu conhecido cibernético!

Arthur Petrillo

04 abril, 2006  
Blogger Carmen said...

Olha, Coréio, uma das experiências mais interessantes que tive com os meninos de rua foi levá-los a uma sessão de cinema para assistirem ao Cidade de Deus.

Algumas pessoas me perguntaram qual seria o objetivo de levá-los ao contato com uma realidade que já conhecem de cor. Explico: uma coisa é o menino viver a situação, totalmente envolvido, sem o distanciamento necessário à reflexão sobre as escolhas feitas até então. Outra coisa totalmente diferente é ser espectador de uma situação, mesmo que ela seja similar àquela que o menino está vivenciando.

O filme fez com que os meninos fossem "objetos para si mesmos", isto é, se distanciassem de uma realidade parecidíssima com a que viviam para refletir sobre ela, sendo, ao mesmo tempo, sujeitos e objetos. O filme funcionou como um espelho. E a reflexão que se seguiu foi uma das mais interessantes em minha experiência como psicóloga e como educadora social. Foi um salto mesmo.

Sou grata ao Fernando Meirelles por este filme. Assim como também sou grata a ele por Jardineiro Fiel. Admiro muito o cineasta que não está aí para brincadeira...

Beijos.

04 abril, 2006  
Anonymous Anônimo said...

filme ki els flam ki eu mto bom + naum eh a minha área...precisavamos de uum desse no Brasil pq soh tem akelis romanticos melas cuecas nada metal neh verdade??
e isso ai
flw
te +
arthur

04 abril, 2006  
Blogger Wilma said...

Esta é a atitude que mais admiro num professor: que tenta se aproximar, se sensibiliza...tenta acompanhar, pena que fatos aconteçam muito mais rápido do que podemos supor. E isso se repete todos os dias!!! Muito triste.
Quanto ao filme, me esclareceu demais...mas evito ver filme do gênero, talvez porque já vejo todia dia nos jornais/RJ...Mas fiquei fã de Fernando Meirelles.

05 abril, 2006  
Anonymous Anônimo said...

fala marco aurelio to voltando ai e naum vo sumi mais naum um abraço Celso

06 abril, 2006  
Blogger Elizabeth said...

Oi Marco Aurélio, muito obrigada por sua visita e seu link. É triste demais essa historia que você conta, e quanto ela se repete, meu Deus!
Ao mesmo tempo, fico feliz em saber que há mais de nós pelo mundo, porque às vezes sinto uma solidão indescritível por pensar assim, por torcer pelo humanismo e não ser mais um dos que atiçam a barbárie. Grande abraço.
Beth

01 junho, 2006  

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